quinta-feira, 10 de maio de 2018

— resposta ao verso “este país te mata lentamente”, de sophia de mello breyner andresen, retirado de “camões e a tença”, dual (1972)

rasguei
feito papel
feito tecido

e assim os dias
têm sido

rasguei
todas absolutamente
todas as veias as pregas
vocálicas os ossos
músculos
órgãos

cada parte do corpo que eu achava meu rasguei em
pedaços tudo numa
explosão

de confetes jorrados à barbárie destes, desses, daqueles dias vermelhos: como as bandeiras, como sangue, como as rosas e as calçadas limpas dia a dia.
duma violência como quem empurra uma faca e perfura um corpo até o último grão de vida, de uma brutalidade como a morte (a de quem vai ou a de quem fica). de uma paralisia pós trauma, os dias se seguem corridos, doloridos, emudecidos. sinto esta angústia, sigo ancorada: em meu quarto, presa às quatro paredes ou pernas e longe, cada vez mais longe, da insolidão. não há sono que me leve, que venha, que me (re)fuja. os dias calmos são mais bravos do que nunca.

quinta-feira, 3 de maio de 2018


de mão em mão
boca em boca
língua em língua
e ponta
meio
fim do dedo
inteiro é
meu medo:
vim parar nas tuas mãos

pena caber só na conotação.




foi só depois das quatro estações
cantagalo
siqueira campos
cardeal
verão
que eu vi
te vi te vi te vi
e ri.


eu gosto do gosto gostoso que tem a tua boca

nas manhãs de segunda
terça
quarta
quinta
e sexta.
you taste like heaven
and i think i'm dying.